CENTRO ADMINISTRATIVO DE BH
Centro Administrativo do Município de Belo Horizonte
Belo Horizonte, Brasil, 2014

Arquitectura: Mar Arquitetura, Gonçalo Azevedo e Ivo Poças Martins
Especialidades: Edgar Brito
Imagens: Real Light 3d

Images|Text

O projeto aceita e descobre oportunidades na trama densa e complexa (urbanismo, meio social, simbologia, mobilidade, condicionantes presentes e futuras) da área de intervenção.
O plano é assim definido através de três pontos de intervenção que aproveitam taticamente o potencial de cada uma das áreas em que, como acupunturas urbanas, se instalam para ativar o meio envolvente: a ¨Torre e cônica¨, a ¨Praça do Papa 2.0¨e a ¨Uai-Line¨.
Ligando-se entre si através de elementos urbanos existentes e reforçados, como o eixo da Avenida Afonso Pena, a Rodoviária e as travessias sobre a Avenida Contorno, o todo é maior do que a soma das partes.
A inserção urbana da torre faz-se do lado poente do terreno disponível, libertando a continuidade do eixo da Avenida Afonso Pena em direção à Rodoviária e à sua vista. A torre cria assim com a Avenida uma relação simultaneamente mais empática, (porque aparece como mais um marco - importante – construindo a rica história da Avenida Afonso Pena e não uma pedra de remate dessa narrativa já centenária) e mais dramática (porque sabemos desde o Barroco que a vista a três quartos enfatiza a presença urbana dos edifícios a destacar).

A torre será única no Brasil e no mundo porque ineditamente cônica: uma torre cônica e icônica.
A sua forma única justifica-se por requisitos funcionais e estruturais fundamentais, que tornarão a sua performance também única: a sua base mais estreita, de forma quadrada nos primeiros pisos, serve para libertar área do espaço público no piso térreo; a sua planta circular nos pisos superiores permite gerar a maior área útil interior com a menor área de parede construída e evita ainda uma perigosa noção de ¨frente¨ e ¨traseiras¨ para um edifício que se pretende congregador à escala urbana; a redução de diâmetro em altura torna a presença urbana do edifício mais elegante e prepara a dimensão ajustada para que, no topo, seja coroado pelo mirante que, aproximadamente à mesma cota, devolve a vista ao Mirante Mangabeiras localizado no extremo oposto do eixo da Avenida Afonso Pena.

A fachada é a nossa interpretação do que poderá ser um arranha-céus no Brasil: uma fachada que concilia proteção solar com aberturas largas sobre a vista fantástica através de jardins que levam a exuberante natureza brasileira a cada um dos pisos de escritórios. Neste edifício, ninguém terá que levar uma pequena planta para a sua mesa de forma a ter um pouco de natureza perto.

Para o exterior, quebra-se também a imagem típica de arranha-céus como algo impenetrável e apático atrás da sua cortina de vidro, substituindo-a por uma acumulação vertical de janelas e jardins a uma escala perceptível e identificável (¨a minha filha trabalha ali, naquele jardim dos ipês-amarelos do 38 andar¨, poder-se-á dizer desde a rua).

A empatia de um edifício com a cidade e os cidadãos consegue-se quando este oferece algo muito para além da sua função interior, á escala urbana. É o caso do relógio e termômetro no cimo do edifício JK e poderá ser o caso da torre icônica, mudando de cor para comunicar a previsão do tempo, sem qualquer apoio tecnológico.
Reduzindo custos através da estrutura modulada da torre e das intervenções estratégicas no espaço urbano, propomos investir na pintura dos painéis de concreto da fachada com uma solução que fará com que, por reação química, a torre mude de cor em função da umidade relativa do ar.

Essa caraterística, conhecida do público geral através dos pequenos ¨galos do tempo¨ e experimentada pela primeira vez em edifícios num pequeno pavilhão projetado pelo artista Sigmar Polke para a Bienal de Veneza de 1986, permitirá transformar o edifício num instrumento de previsão de tempo à escala urbana, visível de quase toda a cidade. A cor rosa indicará tempo úmido com possibilidade de chuva e a cor azul, tempo seco, sem previsão de chuva.
Variando de cor ao longo dos dias e ano como nenhum outro edifício público no mundo, a torre será admirada globalmente e acarinhada localmente.

Estruturalmente, a fachada cumpre uma função fundamental, permitindo dispensar apoios intermédios entre esta e o núcleo central. Assim se reduzem custos e se aumenta a flexibilidade dos espaços interiores.

A organização interior da torre propõe que todos tenham direito ao melhor que um edifício em altura proporciona: a vista e a excelente iluminação. Assim, todos os espaços que terão pessoas em permanecia se localizam acima do solo e abertos para o exterior, incluindo os auditórios. As funções de acesso publico localizam-se nos primeiros pisos e, após uma sequência de 46 pisos de escritórios, o publico pode retomar de novo a sua presença no edifico e a relação com a cidade através do restaurante e do mirante a 360 graus localizados no último piso imediatamente abaixo do heliporto.

Os escritórios poderão ser distribuídos de forma otimizada pelo edifício uma vez que todos os pisos têm áreas diferentes permitindo, por sua, vez, que casa um possa ser dividido em até um máximo de quatro unidades e, dentro de cada uma destas, 25% do espaço possa ser organizado de forma informal (hot-desks, trabalho em equipe, brainstorming, etc).
As generosas áreas perto dos pátios vegetais são indicadas para espaços de convívio.

A High-Line é uma antiga via de trens elevada de Nova Iorque que foi transformada num fantástico e icônico parque público elevado, com trilhas e espaços públicos abertos no meio de um espaço verde denso que sobrevoa ruas, estradas e edifícios.

A Uai-Line, elevando-se acima da Avenida do Contorno e estendendo a cidade para lá dessa via, somará às caraterísticas da sua prima nova-iorquina uma forma circular que a transforma em elemento urbano per se, uma nova centralidade que cria conexões mas não se limita a isso.

Com uma planta circular que não escolhe frente nem traseiras, materializará um hibrido único de parque, ciclovia, pista de passeio e ligação direta, pousando delicadamente nos espaços livres entre as vias que lhe passam por baixo.

A sua plataforma, com 10m de largura, permitirá uma grande variação no seu desenho. Apesar da forma circular - uma geometria pura, o caminho para percorrer a pé ou de bicicleta, terá um traçado serpenteante, alargando pontualmente para permitir momentos de paragem e de convivência.

Além dos espaços de circulação, a "Uai-Line" será arborizada, funcionando como um filtro de vistas, do ruído urbano e uma proteção para o sol.

A iluminação, recorrendo a sistemas de consumo econômico com lâmpadas de LED e paineis fotovoltaicos permitirá o seu uso noturno.

Esta ponte circular, para aém de um percurso de 600m terá ligações de nível desde a plataforma do Edifício da Rodoviária (1), da passarela pedonal da Estação da Lagoínha (2) e, descendo suavemente, à Praça do Peixe (3).

Como é sabido, a Praça do Papa localiza-se no ponto mais alto de Belo Horizonte e gravou esse nome depois da visita de João Paulo II, em 1980.

A praça do Papa 2.0 localizar-se-á na base do ponto mais alto construído em Belo Horizonte, imortalizando uma frase-chave proferida pelo Papa nessa visita passada, através de uma estrutura de sombreamento que a projetará diariamente no pavimento da praça.
¨Quando se olha para vocês é que se deve dizer: que Belo Horizonte¨ foi a declaração então proferida e será a mensagem que assim simbolicamente se estenderá de uma ponta do eixo até à outra, abrangendo toda a cidade no caminho.
Também na flexibilidade e vocação publica do espaço se procurará uma afinidade com a original Praça do Papa, qualificando o centro da cidade com um espaço desse tipo.

O espaço público, originalmente associado à rodoviária, foi entendido e respeitado como algo a preservar pelo seu valor enquanto conjunto, independentemente do valor específico dos seus elementos em separado. Assim, foram mantidos todos os elementos de mobiliário urbano, (a calçada de Burle Marx, mas também os canteiros e os muros em pedra) e pavimentada a área do atual estacionamento com calçada portuguesa para a devolver aos cidadãos e ao uso público. O desenho da nova calçada parte do padrão de Burle Marx para se transformar numa quadricula de base ortogonal subvertida, homenageando toda a BH que cresce e vive para lá da quadrícula.

O novo edifício e a praça têm uma forte ligação horizontal, porque é nesta que se localiza a entrada principal, mas também vertical, porque todos os principais programa públicos da torre se abrem para esse lado. Desses níveis superiores todos poderão ver a cidade e em baixo, como legenda importante, a mítica frase dita por Joao Paulo II em 1980.